Do Que Me Livrei!
Quem nunca passou por uma desilusão amorosa na adolescência que atire a primeira pedra. Paixão daquelas em que estamos perdidamente apaixonados, desejando ardentemente que a pessoa amada fique ao nosso lado e que corresponda ao nosso amor, todavia o desprezo é a única e amarga resposta que recebemos? Pois é, parece que faz parte do nosso complexo aprendizado como seres humanos passarmos por situações de sofrimento emocional para aprendermos a trabalhar com as frustrações da vida e, fortalecidos por estas experiências, aprendermos a enfrentar novas situações semelhantes com mais desenvoltura e segurança.
Certo dia estava conversando com um amigo enquanto caminhávamos despreocupadamente pelas ruas da velha Viamão, porém o entretimento do assunto que nos absorvia quase deixou passar despercebido a presença de uma morena super-gorda que passava na outra calçada, caminhando com sofreguidão, pois estava muito calor, e trombando as pessoas desatenciosas que cruzavam o seu caminho. O meu amigo parou bruscamente e ficou observando a estufada donzela e diante da minha indagação se tinha perdido a atração por mulheres magras, esguias, elegantes, o danado estufou o peito, e, olhando-me de viés, com um indescritível sentimento de prazer que lhe brotava aos olhos (sutil sarcasmo), quase cochichando me confidenciou: “Do que que eu me livrei!”. E suspirou aliviado, enfim.Após o susto, o amigo revelou-me de que a gorducha moçoila que lhe chamara a atenção já havia sido comparada a uma deusa grega por sua inigualável beleza! Era, no passado uma magérrima e esguia gazela que morava na sua rua, e que devido aos tão sensuais e lascívios dotes havia flechado em cheio seu pobre e amolecido coração.
Tal foi a rejeição da avassaladora paixão pela gatísssima vizinha logo que se transformou numa louca obscessão. Largou a escola, o trabalho e não ia mais ao campinho de futebol bater uma bolinha com os amigos, e festas somente se ele soubesse que ela estaria lá, mesmo que isto lhe custasse o inevitável desprezo com que o pobre diabo era tratado pela dona absoluta de seu coração.Sofrera, assim, como um cão sarnento, sem dono, vagando sem rumo pelas ruas infinitas que surgiam em sua vida durante longos e inesquecíveis anos. Até debaixo de chuva o infeliz zumbi trilhava padecendo de desprezo e indiferença quando a belíssima gata lhe esnobava. “Ela zombava de tudo que eu falava e quanto mais eu tentava conquistá-la, mais ela debochava da minha cara!”. Revelou-me, constrangido, com os olhos marejados da lembrança de tamanho sofrimento do amor não correspondido que havia penado. Mas agora que o tempo havia inflando as velas da fortuna, o meu amigo respirava aliviado pelo fim do seu drama, misturado com o prazer daquele surpreendente desfecho.
Fiquei pensando sobre aquela situação e refleti sobre quantas vezes na vida imploramos a Deus por algo que desejamos ter e só nos desiludimos. Parece que as vezes a expectativa é proporcional a frustração, e a resposta de Deus é um não tão rotundo que não escutamos por não querer escutar, ou aceitar passivamente, mas com o passar dos anos a espessa névoa da ilusão se dissipa em frente aos olhos e então enxergamos com clareza os erros que cometemos.
O futuro pode nos reservar tanto aquela pessoa desejada, como alguém com falha de caráter, com doenças mentais graves, um traste cachaceiro, ou uma puta, não interessa agora o resultado do “oba-oba” e sim o fato de que somente algo muito forte e previdente pode nos livrar com antecedência de um destino tenebroso. Talvez seja sorte, ou talvez um anjo-da-guarda, não sei ao certo, mas o santo Alívio sempre está presente quando pensamos ou dizemos “do que eu me livrei!”.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
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